Atores de "Friends" planejam o futuro de suas carreiras


Dana Kennedy
The New York Times

Como todos os membros do elenco de "Friends", da NBC, Matt LeBlanc fez
alguns filmes pouco memoráveis, desde o início da série, em 1994. "Friends",
que teve popularidade fenomenal, está prestes a começar sua nona e
supostamente última temporada. Agora, Hollywood correrá outros riscos ao
contratar LeBlanc ou algum dos outros cinco atores do elenco -Courteney Cox,
Lisa Kudrow, Jennifer Aniston, David Schwimmer e Matthew Perry.

No auge da série, LeBlanc, por exemplo, podia usar sua fama na televisão
para atrair público para uma comédia fraca, como "Ed" - uma história sobre
um jogador de beisebol e um chimpanzé. De qualquer forma, ele sabia que
ainda voltaria confortavelmente para "Friends", no papel do perdido mas
adorável Joey Tribbiani.

Agora, com sua rede de segurança chegando ao fim, os atores estão sofrendo
pressão para usar sua popularidade de forma a conseguir entrar para o
cinema, evitando o destino de muitas ex-estrelas de televisão, que não
conseguiram fazer o salto.

Até agora, Jennifer Aniston, 33, parece ser quem tem mais chance de fazer a
transição de forma permanente. Este mês, ela foi elogiada por atuar em um
pequeno filme independente, "The Good Girl". Ela acaba de assinar contrato
para contracenar com Jim Carrey, em uma nova comédia, "Bruce Almighty".
Perry, 32, também estará em uma nova comédia de grande estúdio, a partir de
23 de agosto. Ele contracena com Elizabeth Hurley em "Serving Sara".

Nenhum dos membros do elenco, no entanto, fez tanto esforço quanto LeBlanc
para participar de um filme este ano. Para fazer seu novo filme, uma comédia
de humor negro da Segunda Guerra Mundial, chamada "All The Queen's Men"
(estréia em outubro nos EUA) e gravar "Friends" ao mesmo tempo, LeBlanc, 35,
viajou toda semana entre a Europa Oriental e Los Angeles, por quase dois
meses.

"Ele pegava um avião toda quarta-feira à noite, para filmar o episódio, e
voltava segunda-feira pela manhã", disse o diretor do filme, Stefan
Ruzowitzky, em entrevista telefônica, de Viena. "Foi um pesadelo. Certa vez,
estávamos perto de Budapeste e tivemos que encontrar um avião pequeno, para
levá-lo até Viena. Dali, voou para Frankfurt e Los Angeles. Era
incrivelmente exaustivo para ele". No filme, inspirado em história real,
LeBlanc faz o papel de um soldado machista, que precisa vestir-se de mulher
para roubar um aparelho codificador usado pelos nazistas.

A decisão de LeBlanc de fazer um papel bem diferente de Joey Tribbiani
parece ser parte de uma estratégia de todos os seis. A idéia é mostrar que
são artistas flexíveis e que podem fazer mais do que televisão. "Muitas
vezes é uma transição difícil", disse Jeff Zucker, presidente da NBC
Entertainment, que supervisiona "Friends". "São relativamente poucos que
passam para o cinema e fazem sucesso -George Clooney, Bruce Willis, Tom
Hanks".

Até Perry está esperando mudar de direção no ano que vem, estrelando no que
ele chama de um filme "espiritual sobre a vida e a morte". Ele disse que o
filme, se for aprovado, será dirigido por Gerald Di Pego (que dirigiu John
Travolta em "Fenômeno") e representará "um grande começo".

Depois da estréia de "Friends", muitos dos seis coadjuvantes escolhiam
papéis similares ao que faziam na televisão, em comédias românticas. David
Schwimmer, 35, fez "O Primeiro Amor de um Homem", com Gwyneth Paltrow, em
1996, e "Kissing a Fool", em 1998; Perry fez "E Agora, Meu Amor?" (1997) e
"Um Caso a Três" (1999). Aniston fez uma variação de sua personagem -a
sensual e às vezes egoísta Rachel Green- em uma série de comédias
românticas, inclusive "Paixão de ocasião", em 1997 e "A Razão do Meu Afeto",
em 1998, ambas arrecadaram somente cerca de US$ 30 milhões (cerca de R$ 90
milhões) cada.

Somente Lisa Kudrow, 39, procurou papéis mais variados, em filmes menores e
independentes. Um deles foi sua atuação bem aclamada de uma mulher solteira
e rígida em "O Oposto do Sexo", 1999. Agora, o resto do elenco está seguindo
seus passos.

Schwimmer será visto em "Hotel", filme independente de baixo orçamento,
dirigido por Mike Figgis (de "Despedida em Las Vegas"), em Veneza. Ele faz o
papel de um sujeito mal-caráter, que quer virar produtor em Hollywood e
tenta assassinar seu melhor amigo para roubar seu filme. "Foi a coisa mais
divertida que já fiz" disse Schwimmer, recentemente, por telefone. "Era
sempre de improviso e filmado com quatro câmeras digitais".

Schwimmer, que começou a Lookingglass Theater Company em Chicago, em 1988,
chama o palco sua "paixão". Depois do final de "Friends", em março, ele
escreverá e dirigirá uma adaptação do livro "Race", de Studs Terkel, para o
teatro. O ator admite, entretanto, que aceitar papéis menores no cinema é
uma forma de fazer filmes sem ficar aguardando o convite de Hollywood.

"Os estúdios não estão exatamente batendo na minha porta", disse ele. "As
pessoas nos vêem 15 vezes por semana -de graça. Não somos vistos como
produtos valiosos no cinema".

Dos atores de "Friends", Courteney Cox, 38, teve o maior sucesso em filmes
de estúdios grandes; no final dos anos 90, ela fez o papel de uma repórter
de televisão, Gale Weathers, em "Scream" e "Scream 2", que arrecadaram mais
de US$ 200 milhões (aproximadamente R$ 600 milhões). Ela também contracenou
com Jim Carrey, na época desconhecido, em "Ace Ventura" (1994).

O primeiro filme no qual aparecerá depois de "Friends", no entanto, é muito
menor. Ela fará o papel de uma mãe solteira no interior do Tennessee, em uma
comédia de humor negro chamada "The Secret Life of Daltry Calhoun". O filme
está orçado em US$ 3 milhões (aproximadamente R$ 9 milhões) e será dirigido
pela relativamente novata Katrina Bronson, 28.

"Não há nenhum problema", disse Cox satisfeita.

Cox e os outros cinco atores principais de "Friends" receberão US$ 1 milhão
(cerca de R$ 3 milhões) por cada um dos 24 episódios desta temporada. A
série gira em torno de seis adultos jovens irônicos em Manhattan e teve
impressionante duração. Por causa de sua segurança econômica, o elenco pode
aceitar papéis em filmes de baixo orçamento. Cox disse, no entanto, que teve
sorte de encontrar "The Secret Life of Daltry Calhoun".

"Não estou necessariamente fazendo os filmes que quero", disse Cox. "É um
pouco mais difícil para atrizes do que para os atores fazerem a travessia
para o cinema. Os bons roteiros são poucos e um número incrível de atrizes
os disputam".

Lisa Kudrow, que estará no "Analyze That", da Warner Brothers, com Billy
Crystal -a seqüência de "Máfia no Divã" (1999)- está se atendo ao que se
provou uma formula de sucesso: misturar filmes de grandes estúdios com
filmes independentes.

No ano que vem, ela contracenará com Damon Wayans, como a herdeira mimada de
"Marci X". Ela também estará em "Bark", filme de orçamento extremamente
baixo, da sua amiga Heather Morton. Morton, que trabalhou com Kudrow no
teatro de improvisação Groundlings no início de sua carreira, escreveu e
dirigiu "Bark". Ela faz o papel de uma mulher que vira um cachorro, e Kudrow
faz uma médica veterinária.

"Nem todo mundo necessariamente quer estrelas de televisão em seus filmes,
então acho que tive muita sorte", disse Kudrow por telefone. "Não acho que
ter feito TV vai nos atrapalhar quando deixarmos 'Friends'. Mas também, não
vou ficar desapontada se não pegar grandes filmes. Não estou tentando ser
Julia Roberts"

Paul Rudnick, roteirista de "Marci X", disse que Kudrow vem levando sua
carreira de forma inteligente desde o início. "Lisa tem sido muito sábia,
aceitando papéis de vários tamanhos, nos quais não tem que ser a estrela",
disse ele. "Essa estratégia foi boa para todos atores que fizeram a
transição -como Bruce Willis em 'Pulp Fiction", para citar um".

Don Roos, que dirigiu "O Oposto do Sexo", admitiu que, inicialmente, ficou
preocupado em contratar Kudrow, por causa de seu trabalho como a excêntrica
Phoebe Buffay, em "Friends". "Tive um pouquinho de medo", disse ele. "Sua
personagem é tão bem definida e icônica, que eu temia que contaminasse sua
personagem no filme. Mas não aconteceu".

A maior parte dos outros atores de "Friends" enfrentou essa questão com
diretores. Ruzowitzky disse que LeBlanc teve sorte porque, como austríaco,
Ruzowitzky não conhecia a série. "Esse foi meu primeiro filme americano e
perguntei aos outros sobre Matt", disse ele. "As pessoas disseram: 'Ele é
ótimo como Joey, mas será que consegue fazer outra coisa?' Elas não sabiam;
talvez estivesse ligado demais ao papel. Mas ele queria fazer algo diferente
e, depois que fiz seu teste, pareceu-me a pessoa certa".

Stephen Herek, que dirigiu Aniston em "Rock Star" (2001), disse que também
teve medo que ela pudesse ter dificuldades para se livrar de Rachel Green.
"Trabalhamos muito duro", disse ele. "Ela sempre me falava: 'Eu sei que vou
escorregar e fazer a Rachel, então, quando o fizer, diga somente "Rachel"'.
Foi o que fiz, mas somente nos primeiros dias. Depois disso, os traços de
Rachel sumiram".

Glenn Gordon Caron, que dirigiu Aniston em "Paixão de Ocasião", começou
dirigindo Bruce Willis na série de televisão "A Gata e o Rato", no final dos
anos 80. "O desafio para Jennifer é encontrar e cultivar o material certo",
disse ele. "Quando eu trabalhava com Bruce, de vez em quando ele ficava
chateado com alguma coisa e eu dizia para ele: 'Você não está entendendo.
Você fará isso o resto da sua vida; você tem a capacidade, não se preocupe'.
Sinto a mesma coisa sobre Jennifer".

A idéia de apontar Aniston como futura estrela de cinema, ou fazer qualquer
tipo de aposta, parece dolorosa para as seis estrelas de "Friends". Elas têm
fama de união e harmonia desde o início do programa -e parece ser verdade.
Nas entrevistas com todos os atores, eles ficam mais emocionados quando
falam sobre deixar a série e uns aos outros do que sobre promover seus novos
projetos.

"O pior é quando eles nos colocam para competir", disse Cox. "Não nos
sentimos assim. Entre nós, não há competição. Queremos que os outros se
saiam bem".

Cox disse que um de seus maiores prazeres era almoçar com Kudrow e Aniston.
Todos os dias elas se encontram no camarim de Kudrow, no set de filmagem de
"Friends", nos estúdios da Warner Brothers em Burbank, Califórnia. "Nunca
perdemos um dia", disse. "Discutimos tudo de nossas vidas". Muitas vezes,
elas falam sobre seus projetos no cinema. Cox acompanhou Aniston quando ela
foi fazer cabelo e maquiagem para os testes de "Rock Star".

Os atores talvez não sejam competitivos, mas seus agentes, muitas vezes,
são. O de Aniston, permitiu que fizesse uma enorme quantidade de entrevistas
para "The Good Girl", mas não respondeu aos pedidos de entrevista para este
artigo. Outro agente de um dos atores afligiu-se com o número de filmes que
os outros atores estão fazendo.

Perry dá crédito a Schwimmer, filho de dois advogados, por estimular o
elenco a permanecer unido, tanto nas negociações de contrato, quanto em
termos pessoais. "Serei para sempre agradecido a ele", disse Perry. "Quando
a série começou, ele era o mais independente. Ele foi o primeiro a fazer um
filme. Ele podia ter lutado por salário melhor, mas nos aconselhou a agir
como grupo".

Cox teve postura similar, disse ele.

"Courteney era o nome importante", disse Perry. "Mas, depois de dois dias
filmando o piloto, ela disse: 'Esta série não tem uma única estrela. Vamos
tomar conta uns dos outros'. Todos soltamos um suspiro coletivo de alívio. A
série poderia facilmente ter se chamado 'O Show de Courteney Cox'".

Perry disse que seria um erro escolher qual dentre eles terá mais chance de
sucesso no cinema.

"Um ótimo exemplo é como, no primeiro ano, Matty Leblanc entrava no meu
camarim e perguntava como devia dizer suas falas", disse Perry. "Eu
respondia. Ele saía e falava daquele jeito. Agora, neste último ano, talvez
eu tenha entrado 20 vezes no seu camarim perguntando a ele como dizer as
coisas".

Schwimmer disse que não achava que seus colegas fariam disputas para se
tornarem grandes atores de cinema. "Nós seis fomos tão abençoados" disse
ele. "Certamente nossas chances podem ser limitadas no cinema porque nossos
personagens estão tão marcados na cabeça das pessoas. Não estou recebendo as
propostas que o Tom Hanks recebe. Mas, para ser totalmente franco, tenho
mais atração pelo palco e roteiros independentes. Por causa da série, todos
temos a liberdade de fazermos o que quisermos".


Tradução: Deborah Weinberg